terça-feira, 15 de julho de 2014

Ó legislador: no que não causa problemas NÃO SE MEXE

Pizza servida em madeira.
Assim se servem as pizze na Itália. Em madeira.

Seja no Verão ou no Inverno, a pizza napolitana tradicional cria-nos água na boca. Em Itália, a sua pátria, é servida tradicionalmente em madeira. Estes tabuleiros por vezes têm décadas e estão gastos. Têm riscos, provenientes de sofrerem a lâmina da faca quando se corta a pizza. É normal. Ninguém se importa. De certeza, uma ou outra partícula de serradura solta pela faca foi na pizza para a boca do que dela desfrutava. Não há registo histórico de alguma queixa ou problema daí advindo. O prazer de ter a pizza, suculenta, numa explosão de sabores tocando a nossa língua faz-nos pensar em tudo menos em serradura. Eu, com quarenta e três anos de vida, nunca havia pensado nisso. E recuso liminarmente que me sirvam a pizza em cartão na mesa. A pizza vem em madeira ou não vem.

Em Portugal achamos que as leis têm que resolver mesmo os problemas que não existem. Se não existirem problemas, cria-se uma lei para reconhecer alguns em potencial. E resolvê-los. Porque estes italianos, alemães e franceses são todos uns javardos terceiro-mundistas. Esses países para os nossos legisladores são tão sabujos que ao simples olhar para um mapa ou a bandeira deles tem que se seguir uma limpeza com solução isotónica (certificada, é claro!) aos olhos.

Se Portugal fosse o dono de um carro, estaria sempre a mexer no motor, mesmo que este não tivesse problema nenhum. Os nossos legisladores merecem a categoria de bestas quadradas e um bom par de lambadas, com requinte, força e pancada seca. E pelo seguinte se prova.

Uma pizzaria pode em Portugal servir em madeira, desde que o tabuleiro não contenha nenhum risco. Ora digam-me lá como é que se consegue manter os tabuleiros incólomes quando as pizzas são cortadas pelos clientes esse tabuleiro. Pior, digam-me porque é que em Itália o tabuleiro em qe se serve a pizza tem riscos e ninguém se importa. E isso aliás é um bom indicador da idade e da experiência da pizzaria. Pizzaria que se preze tem os tabuleiros como a tábua onde eu corto o pão em minha casa. Em Portugal, contudo, isso deu uma multa de 8.600 euros a uma pizzaria da minha região. Sim, oito mil e seiscentos euros. Para os portugueses, graças à benevolência do nosso legislador (caso a besta não perceba, estou a ser sarcástico!) ou vem sobre aço inox ou em cartão.

Essa de deixarem vir em cartão... sei lá eu o que colocam no cartão.

Nota para o legislador: Pare de interferir com a MINHA vida. Se eu quiser comer num estabelecimento qualquer onde vá a pizza em madeira, O PROBLEMA É MEU. NÃO SEU. Não lhe passei procuração para me proteger daquilo que eu posso fazer por mim mesmo. Numa boa expressão, VÁ BUGIAR.

Nota para a ASAE, a ACT e os seus agentes: parem de fazer crimes económicos. Sim, crimes económicos. Parem de enforçar leis estúpidas. Mais do que uma empresa fechou ou vai fechar porque os empresários não estão para vos aturar. Se a pizzaria tem baratas na cozinha, fechem-na. Agora, por causa da cor dos mosaicos na casa de banho ou os tabuleiros da pizza, esqueçam que a lei existe. Agentes, façam tábua rasa do que é estúpido ou suicidem-se. Qualquer das duas atitudes fará mais pela economia portuguesa do que todos os bem-intencionados discursos e iniciativas legislativas.

O Estado é parte do problema. É o principal problema.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Esquerda e a nossa direita

Há diferenças: um usa óculos. As demais diferenças são menores.

O que acontece hoje no BE e no PS aconteceu ontem no PSD e no CDS. Nenhum partido resiste a uma boa luta pelo poder. Esse é um mal dos partidos. Os partidos não são necessários em democracia, nem numa república constitucional.

Dito isto, não quero dizer que os partidos ou os políticos são todos iguais. As semelhanças, contudo, são inegáveis. Há diferenças de fundo, mas são pouco expressivas.

Havendo estabelecido que há diferenças, estando uns esbirros de esquerda ou uns esbirros d'a nossa direita no poder, qual deles me faz menos mal? Quem nos coloca de joelhos é a esquerda. [Vou limitar a imagem apenas à colocação de joelhos, deixando aos leitores a progressão para onde a sua turtuosidade lhes permitir.] A nossa direita anda a tentar corrigir o mal mantendo o mal na mesma. A nossa direita não é direita.

E a banda toca

Tanto a esquerda como a nossa direita tocam para enganar os incautos, ou seja, os eleitores. A música não é, apesar disso, a mesma. Com a esquerda vamos de Marcha Trionfale rumo ao precipício, em passo acelerado e ritmado, seguindo os diversos grandes timoneiros, engenheiros e pasteleiros no poder. A nossa direita limita-se a fazer marcha lenta e dolosa ao Requiem, tentando retardar o momento da queda.

Mas o precipício é sempre o alvo.

Mal maior por mal menor, quando a esquerda está no poder cantamos todos em dó maior e quando a nossa direita está no poder em dó menor. Se é verdade que mi quer proteger a sua própria de si, dirigindo-me aqui ao Estado e ao governo, terei de perder a esperança de ver o sol por entre as núvens.

A falta que um Rui Rio nos fá...

E assim termino a aula de música. Dessa vamos ouvir muita das bandas da esquerda e da nossa direita.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A Rússia tem de se livrar de Dugin

Alexandre Dugin, o teórico da Eurásia

A Rússia tem de se ver livre de Dugin. Dugin não é mais que um marxista, um dos perfeitos idiotas que querem a União soviética de volta. Claro que União Soviética ninguém de bom senso quer ver ressuscitada. E por isso, para consumo externo e interno não se chamaria ao novo bloco União Soviétca, mas Bloco Euroasiático.

O euroasianismo, doutrina que diz que a Rússia é culturalmente distinta da Europa, e que se aproxima mais da Ásia. É uma espécie de pan-eslavismo radical, tomado até à borda do puro racismo. O euroasianismo é uma idiotice. A Rússia é Europa. Não se completa a Europa sem a Rússia. A Europa é o continente dos contrastes culturais e linguísticos. Um português não é um alemão nem um polaco. Um francês não é um finlandês. Um russo é tão europeu como um inglês. Há culturalmente Europa em Moscovo e em Vladivostok, esta última para lá da Península da Coreia. Um Chucha ou um Tártaro podem ser euroasiáticos quanto quiserem. Um russo é claramente um europeu.

Serguei Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa por contraste não é idiota nenhum. Pelo contrário, é uma das pessoas que mais merece respeito e admiração no Mundo. Lavrov fez um tweet uma vez dizendo que quando a rússia se meteu nos assuntos europeus, promoveu sempre a paz. No inícioesbocei um esgar de troça. Mas a memória histórica veio-me uma vez mais. Fora o século XX, sob os esbirros comunistas, a Rússia sempre foi um fator de estabilidade em toda a Europa. Lavrov tem razão. Desde Pedro, o Grande, que a Rússia se aproxima da Europa. Poucos imperadores haverá como Pedro, o Grande. Estudar a sua história é edificante.

E isto leva-me ao ponto seguinte: se é verdade que a Rússia (fora o período soviético) foi sempre um fator de estabilidade na Europa, e uma parte querida da Europa, Lavrov olvidou uma verdade que tornaria o seu comentário ainda mais pertinente. Esta verdade é a seguinte: sempre que a Rússia se aproximou da Europa, a Rússia beneficiou em liberdade, em riqueza e na sua reputação. Quando se isolou empobreceu, embruteceu e, não me apraz dizer, tornou-se o inimigo de estimação de todo o mundo livre.

A Rússia está para a Europa como a rémora para o tubarão. O tubarão não passa bem sem rémoras que lhe limpem os dentes. As rémoras beneficiam da sua interacção com o tubarão, sendo alimentadas. Ambos podem passar sem o outro, mas beneficiam de estar juntos. Dugin e a sua pandilha são escorpiões que se montam num sapo. Mm dia, como conta Esopo nas suas fábulas, espetarão o ferrão. É a sua natureza: a traição está-lhes no sangue. Comunista que é comunista, ou euroasianista que é euroasianista, não descansará enquanto todo o Mundo não estiver de grilhetas, empobrecido às suas ordens, obrigado a sustentá-los.

A Europa não é Europa sem Rússia. A Rússia nunca será Rússia sem ser parte da Europa. Dugin prefere que os russos estejam em grilhetas, sentindo-se inferiores ao resto do Mundo, desde que a sua pandilha mande e faça mandar. Mais cedo ou mais tarde, esses esbirros vão atraiçoar Putin e capturar a Rússia. Uma nova intentona como a de 1991.

Quando isso acontecer, os que hoje imprecam Putin (em boa maioria com críticas injustas) irão soltar lágrimas de saudade.